Artigo: Fabiano Bó
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A piscicultura deixou de ser uma atividade secundária e passou a integrar um dos segmentos mais promissores do agronegócio mundial. Segundo dados do Anuário Peixe BR 2026, a produção brasileira de peixes cultivados ultrapassou pela primeira vez a marca de 1 milhão de toneladas em 2025, consolidando crescimento de 4,41% em relação ao ano anterior. O levantamento também aponta o fortalecimento dos peixes nativos dentro da cadeia aquícola nacional, especialmente espécies amazônicas como tambaqui e pirarucu, que ganharam espaço tanto no abastecimento interno quanto em mercados gastronômicos de maior valor agregado.
A relevância econômica desse avanço vai muito além da produção em si. A piscicultura reúne características cada vez mais valorizadas no cenário internacional. Trata-se de uma atividade com elevada eficiência alimentar, menor emissão de carbono em comparação a outras proteínas animais e forte capacidade de expansão sem exigir os mesmos níveis de ocupação territorial observados em outros modelos produtivos. Em um contexto global de preocupação crescente com sustentabilidade e segurança alimentar, produzir proteína a partir da água passou a representar não apenas oportunidade econômica, mas vantagem estratégica.

Nesse cenário, a Amazônia ocupa posição singular. A região reúne disponibilidade hídrica incomparável, clima favorável e espécies nativas altamente adaptadas às condições ambientais locais. Segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o consumo de pescado na Região Norte permanece entre os maiores do país, refletindo uma relação histórica entre alimentação, economia regional e recursos pesqueiros. Em diversas áreas do interior amazônico, o peixe não representa apenas atividade comercial. Ele integra a própria base alimentar e econômica das populações locais.
Entretanto, transformar esse potencial em desenvolvimento concreto continua sendo um dos grandes desafios regionais. A cadeia produtiva da piscicultura ainda enfrenta gargalos estruturais significativos, especialmente relacionados ao custo de produção. Segundo estudos técnicos da Embrapa Pesca e Aquicultura, a alimentação dos peixes pode representar até 70% do custo operacional da atividade. Isso faz com que estados integrados à produção de milho e soja possuam vantagem econômica importante dentro do setor aquícola nacional.
Essa dinâmica ajuda a explicar o protagonismo de Rondônia na produção brasileira de peixes nativos cultivados. Segundo o Anuário Peixe BR 2026, o estado ultrapassou 55 mil toneladas produzidas em 2025 e consolidou liderança nacional no segmento. A integração entre piscicultura, produção de grãos e logística terrestre criou um ambiente mais competitivo e economicamente eficiente. Enquanto isso, o Amazonas ainda enfrenta obstáculos relacionados ao transporte regional, à dependência fluvial, ao elevado custo de insumos e às limitações de infraestrutura em boa parte do interior.
Os eventos climáticos extremos registrados recentemente agravaram ainda mais esse cenário. As estiagens severas dos últimos anos comprometeram a navegabilidade dos rios amazônicos, afetando diretamente o abastecimento, o transporte de cargas e o funcionamento da economia regional. Segundo dados oficiais do Porto de Manaus, o Rio Negro registrou em 2024 a menor cota já monitorada historicamente. Em uma região onde os rios representam a principal estrutura de circulação econômica, qualquer interrupção prolongada impacta imediatamente a produção, o abastecimento e a estabilidade das cadeias produtivas.
Mesmo diante dessas limitações, a piscicultura permanece como uma das atividades de maior capacidade transformadora para a economia amazônica. Além da geração de renda e da produção de alimentos, a atividade possui forte potencial de interiorização econômica, permitindo criação de oportunidades fora dos grandes centros urbanos. Em muitos municípios, a produção de pescado já ocupa papel relevante na movimentação econômica local, fortalecendo pequenos produtores, agricultura familiar e cadeias regionais de abastecimento.
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O futuro econômico da Amazônia provavelmente passará pela capacidade de transformar recursos naturais em cadeias produtivas sustentáveis, tecnologicamente eficientes e socialmente integradas à realidade regional. E poucas atividades sintetizam tanto essa possibilidade quanto a piscicultura. O desafio não está em provar que a Amazônia possui potencial. Isso os números já demonstram. O verdadeiro desafio consiste em criar condições estruturais para que a região consiga converter sua abundância hídrica em desenvolvimento, competitividade e estabilidade econômica de longo prazo.
Fonte: OPINIÃO MANAURA
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