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Só 14% das empresas estão prontas para a Reforma Tributária

Estudo inédito da Grant Thornton e ANEFAC mostra que 81% esperam impactos do split payment no fluxo de caixa e 71% preveem mudanças na precificação

Só 14% das empresas estão prontas para a Reforma Tributária
Só 14% das empresas estão prontas para a Reforma Tributária

A menos de um ano do início de uma nova etapa da Reforma Tributária, as empresas brasileiras avançam na compreensão dos impactos das novas regras, mas ainda enfrentam uma distância relevante entre estudar a mudança e estar efetivamente preparadas para implementá-la. Pesquisa inédita da Grant Thornton, em parceria com a Associação Nacional de Executivos (ANEFAC), mostra que apenas 14% das empresas se consideram muito preparadas para a implementação da reforma, embora 77% já tenham concluído ou estejam realizando simulações de seus impactos.

O levantamento Panorama da Reforma Tributária 2026 ouviu 115 empresas, entre abril e junho deste ano, de diferentes portes e segmentos econômicos, com destaque para indústria, serviços e comércio. Os resultados mostram que a reforma já ultrapassou os limites das áreas fiscal e tributária e começa a impactar decisões relacionadas a fluxo de caixa, preços, tecnologia, fornecedores, estrutura operacional e estratégia de negócios.

"O avanço das empresas na análise da reforma é positivo, mas conhecer as novas regras não significa estar pronto para operá-las. A implementação exige uma visão integrada dos impactos sobre caixa, margens, tecnologia, cadeia de valor e modelo de negócio. As empresas que conseguirem antecipar essas decisões estarão em uma posição melhor durante a transição", afirma David Benevides, sócio-líder de Tributos da Grant Thornton.

Split payment coloca o caixa no centro das decisões

Entre os principais pontos de atenção está o split payment, mecanismo que prevê a segregação e o recolhimento dos tributos no momento da liquidação financeira das operações. Para 81% das empresas, a mudança deverá provocar impacto relevante ou moderado no fluxo de caixa. Desse total, 36% esperam efeito muito relevante sobre o capital de giro e 45% projetam impacto moderado.

Na prática, a mudança pode reduzir o financiamento natural proporcionado pelo intervalo entre o recebimento das vendas e o recolhimento dos tributos, aumentando a necessidade de capital de giro, a dependência de crédito e as despesas financeiras. "A discussão sobre a Reforma Tributária passa a ser também uma discussão financeira. Não basta calcular quanto a empresa pagará de imposto. É necessário entender como esse tributo será suportado ao longo da operação e quais serão os efeitos sobre capital de giro, financiamento e rentabilidade", explica Wanessa Pinheiro, sócia de Tributos Indiretos da Grant Thornton.

Reforma também deve mudar preços

Outro efeito relevante aparece na estratégia comercial. Sete em cada dez empresas (71%) já preveem mudanças na precificação de produtos e serviços: 37% afirmam que será necessária uma revisão completa da estratégia de preços e 34% esperam realizar ajustes pontuais.

Com o novo sistema, fatores como geração e aproveitamento de créditos tributários, perfil do cliente, efeitos financeiros do split payment e alterações nas margens passam a influenciar a formação de preços. A pesquisa mostra ainda que 22% das empresas sequer avaliaram se seus clientes conseguirão recuperar integralmente os tributos incidentes nas operações.

A cadeia de valor também entra nessa equação. Apenas 19% das empresas já concluíram o mapeamento de sua cadeia de suprimentos e dos créditos tributários potenciais. Outros 45% estão realizando análises parciais, enquanto 36% ainda estão em discussões iniciais ou não fizeram essa avaliação.

Tecnologia permanece entre os principais desafios

A preparação tecnológica é outra frente crítica. Apenas 24% das empresas afirmam que seus sistemas de ERP e tecnologia fiscal estão plenamente preparados para a nova sistemática de IBS e CBS. Para 63%, ainda existem lacunas relevantes, enquanto as demais empresas apontam necessidade de investimentos significativos ou ainda estão avaliando sua situação.

A adaptação envolve desde parametrizações fiscais e sistemas de faturamento até governança de dados, integrações entre áreas, automações tributárias e processos de compliance. A coexistência entre os regimes atual e novo durante o período de transição deverá adicionar complexidade operacional ao processo.

O desafio também passa pelas pessoas. Somente 17% das empresas consideram suas equipes plenamente preparadas para o novo ambiente tributário. Para 63%, será necessário ampliar programas de capacitação, enquanto 10% afirmam que precisarão desenvolver ou contratar novas competências.

Reforma chega à alta liderança

Apesar das lacunas, a pesquisa identifica um movimento de amadurecimento da agenda nas organizações. Para 50% das empresas, a Reforma Tributária já é tratada de forma estratégica, com envolvimento da alta administração e de múltiplas áreas. Outros 25% já contam com a participação de áreas além do departamento tributário.

Para Roberto Fragoso, presidente da ANEFAC, o maior desafio que a Reforma Tributária apresenta às empresas é também a sua maior oportunidade: passar a decidir tributos, sistemas e preços na mesma mesa. "A Reforma alcança diretamente todas as áreas de uma empresa. Da aquisição às vendas, de finanças ao RH. Tratá-la apenas como assunto fiscal deixa ganhos na mesa. Quem coordenar essas frentes desde agora sairá da transição mais eficiente do que entrou", conclui.

A pesquisa também mostra que 52% das organizações já identificam a possibilidade de revisões em seus planos de negócios ou estruturas: 19% têm revisões estratégicas relevantes em análise e 33% consideram possíveis ajustes estruturais no médio prazo. Para os executivos, o grau de maturidade das empresas durante a transição não será determinado apenas pelo conhecimento das novas regras, mas pela capacidade de transformar esse conhecimento em decisões concretas. Simular impactos, preparar sistemas, revisar preços e fornecedores, modelar efeitos sobre o capital de giro e envolver a alta administração estão entre as principais medidas apontadas pelo estudo.

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