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Calor extremo aprofunda desigualdades sociais em Manaus, aponta especialista

Falta de áreas verdes amplia ilhas de calor, pressiona o orçamento das famílias e evidencia desigualdades socioambientais na capital amazonense

Calor extremo aprofunda desigualdades sociais em Manaus, aponta especialista
(Foto: Divulgação)

Sob forte calor e encoberta por fumaça, Manaus enfrenta um dos piores verões amazônicos dos últimos anos. O contraste entre o verde da floresta e o cinza da cidade demonstra o impacto da falta de arborização da capital, que possui apenas 44% de área urbana com cobertura de árvores, de acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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Para a pesquisadora em Desenvolvimento Regional e economista, Michele Aracaty, Manaus vem, há décadas, ignorando sua geografia natural. O problema, segundo ela, começou em 1970, quando o crescimento demográfico e a expansão imobiliária foram impulsionados pelo modelo da Zona Franca de Manaus.

“Desde então, a capital do Amazonas segue recebendo fluxo migratório em busca de saúde, educação, oportunidades e melhoria de vida. No entanto, o urbanismo da capital amazonense replicou modelos coloniais e industriais de vias estreitas e blocos densos de concreto, priorizaram o asfalto, as calçadas estreitas ou ausentes, construções germinadas e o desmatamento de fragmentos florestais urbanos. desconsiderando a necessidade de preservação e sombreamento”, destacou.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 55% da população mundial vive em áreas urbanas, uma proporção que deve aumentar para 68% até 2050. Na contramão, mais de 4,2 bilhões de pessoas vivem em cidades sem infraestrutura, que concentram grandes ilhas de calor, fenômeno climático caracterizado pela presença de materiais como concreto, asfalto, poluição e falta de arborização.

Calor e desigualdade

Os impactos das altas temperaturas e da baixa arborização não atingem toda a população da mesma maneira e afetam diretamente bairros das regiões periféricas. Em Manaus, as áreas mais afetadas são nos bairros São José Operário, Jorge Teixeira, Tancredo Neves, Cidade Nova e Parque 10, segundo informações atribuídas ao Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

São as famílias com menor renda as mais expostas às moradias com pouca ventilação e isolamento térmico, menor acesso à climatização e maior dependência do transporte e do trabalho realizado ao ar livre.

“Em uma cidade de clima quente e úmido, a presença de árvores deixa de ser apenas uma questão de paisagismo e passa a ser uma estratégia de adaptação climática. Ambientes arborizados podem apresentar temperaturas do ar significativamente menores que áreas expostas, enquanto a diferença entre superfícies sombreadas e asfalto sob sol intenso pode ser ainda maior”, ressaltou Michele Aracaty.

Nesse contexto, a chamada justiça climática evidencia que os efeitos das mudanças climáticas se somam às desigualdades sociais, econômicas, territoriais, raciais, de gênero e de idade e, por isso, é preciso implementar mudanças nas políticas públicas promovidas pelos governantes.

Árvores como infraestrutura urbana

A arborização precisa ser incorporada ao planejamento urbano como infraestrutura, e não apenas como elemento ornamental. Estudos apontam que sombra para pedestres, conforto térmico, qualificação das calçadas, drenagem, mobilidade, iluminação, transporte público e ciclovias devem ser planejados de forma integrada para uma cidade sustentável e funcional.

Experiências internacionais, como a implantação de miniflorestas em escolas e espaços urbanos de Paris, mostram que áreas verdes podem fazer parte de políticas públicas de adaptação às mudanças climáticas e de melhoria da qualidade ambiental.

Para Manaus, Michele Aracaty destaca que medidas como ampliação da arborização, criação e preservação de áreas verdes, pavimentos que reduzam a absorção de calor, telhados verdes e adaptação de moradias e infraestruturas podem contribuir para enfrentar temperaturas extremas.

“As principais estratégias para reverter e mitigar esse cenário incluem políticas públicas e planejamento urbano, com planos de arborização estruturados, ampliação e proteção de áreas verdes, instalação de toldos vegetais e pavimentos permeáveis. Há ainda o engajamento comunitário e o setor privado, que podem atuar com a distribuição e o plantio doméstico, além de exigências para a construção civil e o reforço da educação ambiental nas escolas”, concluiu.

 

Fonte: ASSESSORIA

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