Fomento ao desenvolvimento sustentável: o novo caminho das finanças

Amazônia

Mudança de perspectiva + transformação de paradigmas + diálogo + ação coletiva e sistêmica = impacto positivo. Essa pode ser a fórmula síntese para uma nova abordagem acerca do desenvolvimento sustentável. E o agente de fomento? O setor financeiro. “As finanças têm um papel crucial na indução à sustentabilidade, porque esses mecanismos podem escolher direcionar o capital financeiro para a produção econômica que promove, simultaneamente, resultados sociais e ambientais positivos”, explica Roberta Simonetti, especialista em Finanças Sustentáveis do WWF-Brasil.

No dia em que o Brasil alcançou sua cota anual de recursos naturais (conhecido como Dia da Sobrecarga da Terra), 31 de julho, o WWF-Brasil e a Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), com apoio do Banco Cooperativo do Brasil (Bancoob) e do Pacto em Defesa das Cabeceiras do Pantanal, iniciaram o 2º Ciclo dos Seminários Regionais com a edição Centro-Oeste.

O evento reuniu, na sede do Bancoob em Brasília, especialistas de instituições associadas à ABDE, Banco Mundial, Ministério da Economia e do Desenvolvimento Regional, Fundação Getúlio Vargas, Agroícone, além de representantes de comunidades locais, como a Associação dos Produtores Agroecológicos do Alto São Bartolomeu – Aprospera.

Na abertura o presidente da ABDE e diretor do Banco do Nordeste, Perpétuo Socorro Cajazerias, destacou a complexidade e o desafio de promover o desenvolvimento sustentável no país, visando superar as desigualdades regionais e enfrentar os limites de renda, que retiram muitos do mercado consumidor. Ressaltou também a importância em atuar desde a perspectiva regional, destacando o papel das agências de fomento que, segundo ele, “vão aonde os bancos tradicionais não chegam e entendem necessidades locais”.

Gabriela Yamaguchi, Diretora de Engajamento da Sociedade do WWF-Brasil, alertou acerca dos desafios globais que a humanidade vive e sobre a urgente necessidade de ações sistêmicas e coordenadas de toda a sociedade a fim de emplacar a perspectiva contemporânea do desenvolvimento com sustentabilidade. Temos o desafio de frear e reverter as tendências de degradação da natureza, que combina perda de biodiversidade com aumento das emissões de gases de efeito estufa.

“Estamos há mais de 30 anos debatendo e acordando sobre o desenvolvimento sustentável e sabemos que para alcança-lo, precisamos mudar o modelo que dominou o desenvolvimento nas últimas décadas. O setor financeiro tem condições de induzir a adoção desta nova visão de desenvolvimento, onde se reconhece a natureza, e sua incrível biodiversidade, como a real fonte de toda nossa riqueza”, destaca Gabriela.

Além de grande parte da Amazônia, crucial para a regulação do clima da Terra, e do Cerrado, berço de nascentes essenciais para o abastecimento de importantes bacias hidrográficas, o país é detentor da maior biodiversidade do planeta e tem potencial para ser o maior produtor de alimentos. Para isso precisamos fortalecer as boas práticas agrícolas, como as práticas do Plano ABC e aumentar nossa produtividade.

“Nosso desenvolvimento não precisa ser pautado em exemplos estrangeiros. O Brasil tem condições de se tornar uma liderança global inspiradora se conseguir mostrar ao mundo que é plenamente possível conciliar o desenvolvimento socioeconômico à conservação da natureza. E, para isso, ciência, tecnologia e conhecimento são essenciais”, acrescenta.

A ação com a ABDE faz parte da estratégia de atuação do WWF-Brasil, que busca o trabalho coletivo e em rede, reconhecendo que a soma de conhecimentos e experiências de diferentes organizações e atores sociais, resulta em parcerias fortes, duradouras e com maior impacto positivo.

“Uma vez que queremos incentivar uma mudança significativa nos fluxos financeiros para atividades econômicas que potencializem o desenvolvimento sustentável a fim de mudar esta atual trajetória de degradação ambiental, faz todo sentido estabelecer essa parceria com a ABDE, que está presente em todas as regiões do país”, reforçou Roberta.

Centro-Oeste: produção agrícola supervalorizada e potencial ignorado para turismo
Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, além do Distrito Federal, compõem a região Centro-Oeste brasileira. Um mosaico de natureza, pessoas, tradições e culturas, produção agrícola e paisagens bem no coração da América do Sul. Juntos, esses estados representam praticamente um quinto da área total do Brasil e abrigam uma população de aproximadamente 14 milhões de pessoas, segundo o IBGE, e compartilham belezas naturais de uma combinação única dos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

A história de ocupação do Centro-Oeste priorizou o setor agropecuário, que se intensificou na década de 1970, quando pesquisas da Embrapa conseguiram adaptar a soja para o clima e solo do Cerrado, bioma predominante na região. Algodão, milho, feijão e gado de corte são outras atividades que colocam aqueles estados em destaque em termos de resultados financeiros, fazendo do Centro-Oeste o berço do agronegócio brasileiro.

Ao mesmo tempo, é a terceira região com maior concentração de povos originários, como indígenas e quilombolas (existem 118 comunidades em processo de titulação no Incra e quatro tituladas ou parcialmente tituladas, segundo o Observatório Terras Quilombolas da Comissão Pró-Índio de São Paulo CPI-SP).
Em termos de conservação da biodiversidade, a região resguarda apenas pouco mais de 10% do total de Unidades de Conservação do Brasil (251 UCs), sendo a apenas 31% (78) de proteção integral, segundo o Cadastro Nacional de Unidades de Conservação (CNUC), mantido pelo Ministério do Meio Ambiente.

Esses são alguns fatores que que incrementam o dinamismo e multidiversidades da região Centro-Oeste. Na perspectiva sistêmica, base da sustentabilidade, todos esses aspectos precisam ser levados em consideração em análises integradas a outros elementos de desenvolvimento. Essa foi a abordagem dos diálogos com especialistas durante o seminário.

Os temas do encontro em Brasília foram: oportunidades de desenvolvimento da região; o papel dos atores locais; desenvolvimento produtivo sustentável; infraestrutura logística e energética; potencialidades para a região e finanças sustentáveis.

Em geral, os palestrantes trouxeram elementos que mostram a necessidade e urgência em mudar o modelo atual de desenvolvimento, em um contexto desafiador devido ao nosso baixo estoque de capital financeiro e taxa de investimento.

“Há duas urgências: preservar [o meio ambiente] e mudar radicalmente o [modelo de negócios] que está aí”, assim resumiu Carlos Aguedo Paiva da Paradoxo Consultoria, durante o encerramento do seminário.
Também ressaltou que na perspectiva do novo modelo de desenvolvimento sustentável é preciso reconhecer os conflitos e as possíveis trocas inerentes de escolhas e reconhecer que o planeta está aquecendo e que esse fato inexorável compromete, inclusive, nossa capacidade de continuar produzindo alimentos, em um contexto onde parte da população não se alimenta de maneira adequada. “Para alcançar uma solução justa, é preciso sair da zona de conforto”, enxergando novos potenciais além dos tradicionais modelos estabelecidos.

Carlos destacou o desempenho do Centro-Oeste no Produto Interno Bruto para alertar sobre potenciais ignorados e possíveis inovações em desenvolvimento local. Segundo ele, a participação da região vem crescendo graças ao agronegócio. “Por outro lado, a região tem grande potencial turístico. Sistemas turísticos são altamente empregadores e exigem sustentabilidade. O turismo é uma forma de resgatar nossa relação com a natureza, reconhecendo seu valor como capital ativo”.

De acordo com Roberta, o evento conseguiu trazer exemplos reais do que já está acontecendo e oportunidades de alavancar ainda mais o desenvolvimento sustentável, o que precisa ser feito imediatamente. “Passamos décadas debatendo o que seria o desenvolvimento sustentável, agora temos um norte que são as 169 metas do desenvolvimento sustentável, assumidas pelo Brasil e outras 192 nações-membro da ONU. Agora precisamos definir como vamos fazer isso”, conclui Roberta.

Isso reforça, mais uma vez, nossa responsabilidade como nação e a necessidade da ciência, do compartilhamento de conhecimento, da adoção de novas tecnologias, da inovação, do diálogo e, fundamentalmente, de muita colaboração.

Fonte: WWF-BRASIL

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